
- DANIEL GRABNER - 80 min. - ALEMANHA - 2002 -
O haxixe foi a primeira droga visionária a capturar a imaginação dos intelectuais ocidentais. Ainda que o ópio possa ter inspirado as ruminações de Thomas de Quincey (sobre a memória e o trabalho onírico em suas "Confissões") e transportado escritores e artistas do século XIX ao ‘demi-monde’ do sonho desperto, estes foram casos pouco comuns de excitação mental, contrários aos seus principais efeitos como narcótico. O ópio concorria para embotar os sentidos e amortecer a consciência. A calma soporífera e celeste à qual se abandonava o comedor de ópio estava bem longe da euforia delirante do haxixe, há muito tempo conhecido no Oriente.
É quase certo que o primeiro dos românticos a experimentar o haxixe foi Samuel Taylor Coleridge. Em 1804, já familiarizado com os efeitos do láudano e do óxido nitroso, Coleridge conseguiu um pouco de bhang via Companhia das Índias Orientais, a fim de examinar, com Tom Wedgwood, seus efeitos na percepção. Para Coleridge, o haxixe era um estimulante mítico de sonhos e fantasias: elixir fabuloso das noites árabes; "nepenthe" dos gregos, descrito por Homero como "potente destruidor do desgosto".
Apesar de tudo, nem Coleridge nem Wedgwood experimentaram efeitos que justificassem a reputação do haxixe como substância visionária, e apenas na metade do mesmo século é que o ‘mode du haschisch’ começaria a excitar a curiosidade de escritores e artistas, quando o psiquiatra Jacques Joseph Moreau conduziu os primeiros experimentos científicos com a droga.
Moreau descobriu o haxixe em viagem pelo Egito, por volta de 1830, e interessou-se pela substância como "um meio de explorar o campo da patologia mental" presumindo que os delírios, impulsos e alucinações pelo haxixe inspirados constituíssem uma forma paralela e especial de insanidade.
Junto com Theophile Gautier, Moreau estabeleceu o Club des Haschischin, nos idos de 1840, fundando uma paródia de ordem oriental composta por artistas e escritores que se reuniam em saraus mensais no Hotel Pimodan. Ali, na Ile Saint-Louis, na elegância suntuosa dos interiores majestosos do Pimodan, os haschischins ingeriam sua "dawamesk" (uma pasta doce de haxixe) e esperavam o disparar do sublime delírio.
Gautier publicou dois diferentes relatos sobre suas experiências no clube. A primeira apareceu em "La Presse Medicale", em 1845, e contava com uma descrição famosa do haxixe e de sua peculiar capacidade de magnificar e distorcer os sentidos.
Gerard de Nerval, Alfred de Musset, Alexander Dumas e Charles Baudelaire foram visitantes do clube. Se é sabido que Baudelaire o visitou em pelo menos uma ocasião, como convidado do pintor Ferdinand Boissard, é improvável que ele o tenha usado com indulgência; na verdade, há poucas provas capazes de sugerir que Baudelaire tenha experimentado mais de uma vez. Em "Les Paradises Artificiels", Baudelaire, por seu turno, afirmava ter baseado suas descobertas nas "notas e confidências de homens inteligentes ao haxixe devotados".
Quaisquer que fossem as razões para que Baudelaire não quisesse falar diretamente de sua experiência pessoal, sua avaliação dos efeitos do haxixe sobre a "imaginação poética" permanece uma obra-prima de vislumbre psicológico - ainda que sua avaliação final sobre o haxixe como estimulante da imaginação fosse bastante irônica.
Nos EUA, a primeira onda de investigadores do haxixe não partilhava da suspeita de Baudelaire. Escrevendo para o "Atlantic Monthly", em 1854, Bayard Taylor descreveu o "indizível transporte" induzido pelo haxixe numa viagem celestial por pirâmides, desertos e palmeiras. A descrição de Taylor deste "jardim das delícias sensual" foi lida por Fitz Hugh Ludlow, um estudante de 18 anos, que já tinha dado início a suas próprias investigações sobre o assunto. Em 1857, os experimentos de Ludlow vieram à luz sob o nome de "The Haxixe Eater", publicado anonimamente, e neles são bem perceptíveis as influências tanto de Taylor como de De Quincey. As confissões de Ludlow desdobram-se numa série de viagens por territórios primevos e paisagens orientais, culminando na sua subida às alturas majestosas da iluminação, de onde ele conseguia lobrigar "as brumas da verdade enevoada".
Embora Ludlow creditasse o haxixe como uma "droga de viagem", a substância era também capaz de "ampliar a percepção" e de produzir vislumbres filosóficos. Por meio dessa capacidade do haxixe em desligar a mente do corpo é que Ludlow encontrou as provas tangíveis do mundo platônico do Ideal, da metempsicose de Pitágoras e de muito da bagagem filosófica central do transcendentalismo norte-americano do século XIX.
É quase certo que o primeiro dos românticos a experimentar o haxixe foi Samuel Taylor Coleridge. Em 1804, já familiarizado com os efeitos do láudano e do óxido nitroso, Coleridge conseguiu um pouco de bhang via Companhia das Índias Orientais, a fim de examinar, com Tom Wedgwood, seus efeitos na percepção. Para Coleridge, o haxixe era um estimulante mítico de sonhos e fantasias: elixir fabuloso das noites árabes; "nepenthe" dos gregos, descrito por Homero como "potente destruidor do desgosto".
Apesar de tudo, nem Coleridge nem Wedgwood experimentaram efeitos que justificassem a reputação do haxixe como substância visionária, e apenas na metade do mesmo século é que o ‘mode du haschisch’ começaria a excitar a curiosidade de escritores e artistas, quando o psiquiatra Jacques Joseph Moreau conduziu os primeiros experimentos científicos com a droga.
Moreau descobriu o haxixe em viagem pelo Egito, por volta de 1830, e interessou-se pela substância como "um meio de explorar o campo da patologia mental" presumindo que os delírios, impulsos e alucinações pelo haxixe inspirados constituíssem uma forma paralela e especial de insanidade.
Junto com Theophile Gautier, Moreau estabeleceu o Club des Haschischin, nos idos de 1840, fundando uma paródia de ordem oriental composta por artistas e escritores que se reuniam em saraus mensais no Hotel Pimodan. Ali, na Ile Saint-Louis, na elegância suntuosa dos interiores majestosos do Pimodan, os haschischins ingeriam sua "dawamesk" (uma pasta doce de haxixe) e esperavam o disparar do sublime delírio.
Gautier publicou dois diferentes relatos sobre suas experiências no clube. A primeira apareceu em "La Presse Medicale", em 1845, e contava com uma descrição famosa do haxixe e de sua peculiar capacidade de magnificar e distorcer os sentidos.
Gerard de Nerval, Alfred de Musset, Alexander Dumas e Charles Baudelaire foram visitantes do clube. Se é sabido que Baudelaire o visitou em pelo menos uma ocasião, como convidado do pintor Ferdinand Boissard, é improvável que ele o tenha usado com indulgência; na verdade, há poucas provas capazes de sugerir que Baudelaire tenha experimentado mais de uma vez. Em "Les Paradises Artificiels", Baudelaire, por seu turno, afirmava ter baseado suas descobertas nas "notas e confidências de homens inteligentes ao haxixe devotados".
Quaisquer que fossem as razões para que Baudelaire não quisesse falar diretamente de sua experiência pessoal, sua avaliação dos efeitos do haxixe sobre a "imaginação poética" permanece uma obra-prima de vislumbre psicológico - ainda que sua avaliação final sobre o haxixe como estimulante da imaginação fosse bastante irônica.
Nos EUA, a primeira onda de investigadores do haxixe não partilhava da suspeita de Baudelaire. Escrevendo para o "Atlantic Monthly", em 1854, Bayard Taylor descreveu o "indizível transporte" induzido pelo haxixe numa viagem celestial por pirâmides, desertos e palmeiras. A descrição de Taylor deste "jardim das delícias sensual" foi lida por Fitz Hugh Ludlow, um estudante de 18 anos, que já tinha dado início a suas próprias investigações sobre o assunto. Em 1857, os experimentos de Ludlow vieram à luz sob o nome de "The Haxixe Eater", publicado anonimamente, e neles são bem perceptíveis as influências tanto de Taylor como de De Quincey. As confissões de Ludlow desdobram-se numa série de viagens por territórios primevos e paisagens orientais, culminando na sua subida às alturas majestosas da iluminação, de onde ele conseguia lobrigar "as brumas da verdade enevoada".
Embora Ludlow creditasse o haxixe como uma "droga de viagem", a substância era também capaz de "ampliar a percepção" e de produzir vislumbres filosóficos. Por meio dessa capacidade do haxixe em desligar a mente do corpo é que Ludlow encontrou as provas tangíveis do mundo platônico do Ideal, da metempsicose de Pitágoras e de muito da bagagem filosófica central do transcendentalismo norte-americano do século XIX.
Antonio Melechi
STUDIO ONE ROOTS 1












4 Comments:
Vocês sabem se tem legenda em algum lugar? Procurei e não achei... Abraços e obrigado!!
Nem idéia.
O haxixe é um excelente estimulante mental... se usado na medida certa.
Infelizmente... na maioria das vezes... eu acabo perdendo a medida... e os estímulos acabam se tornando um caos mental.
É a mente em busca das delícias sensório-mentais...
ei... onde acho a legenda pro filme????
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